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Boas Intenções Não Bastam

O Que Realmente Gera Confiança nas Famílias por Felipe Badotti | Memorial Vera Cruz

Hoje li um artigo intitulado “Good Intentions Get You Nowere” (Boas Intenções Não Te Levam a Lugar Nenhum) na revista Memento Mori da ICCFA que me fez parar e pensar. A ideia central é simples e incômoda ao mesmo tempo: excelência no atendimento funerário não nasce de compaixão. Ela nasce de clareza operacional, do processo de qualidade.

Concordo inteiramente. E posso dizer isso com base na minha experiência à frente de uma empresa que nasceu exatamente para questionar o jeito tradicional de fazer as coisas.

Uma Empresa Nascida para Transformar o Setor

O Memorial Vera Cruz não surgiu para ser mais um cemitério ou uma funerária. Nasceu como uma resposta direta ao modelo tradicional do setor, Nascemos para combater as funerárias tradicionais e sua ideia que reduz um dos momentos mais significativos da vida humana a uma transação comercial, onde o foco está no caixão, no preço e na burocracia, não na pessoa que partiu nem na família que ficou.

Desde o início, nossa proposta foi outra: transformar funerais em homenagens genuínas a uma vida. Não vender caixões, mas celebrar histórias. Não processar óbitos, mas acolher famílias em seu momento mais vulnerável com dignidade, clareza e cuidado real.

Contudo, há um desafio enorme nisso: Como transformar a intenção de fornecer homenagens dignas em uma experiência consistente, independente de quem está de plantão ou da dificuldade do atendimento? Esse é o desafio que nos ocupa até hoje. E foi exatamente sobre isso que o artigo de Anaya me fez refletir.

O Problema Que Ninguém Quer Admitir

Todo gestor acredita que sua equipe atende bem. Que os profissionais são empáticos, dedicados, comprometidos. E provavelmente é verdade.

Mas empatia sem estrutura produz inconsistência. E inconsistência, no momento mais delicado da vida de uma família, gera exatamente o oposto do que queremos: insegurança, dúvida e arrependimento.

Em um atendimento funerário não existe segunda chance. Nosso serviço só é feito uma vez, cada pessoa é única e a oportunidade de fazer a última homenagem não se repete. Isso produz um sentimento de obsessão pela qualidade, por fazer bem-feito sempre.

Gestão é muito diferente de improviso com boa vontade.

No artigo, Anaya parte de um princípio que eu traduziria assim: a família não pode depender do talento individual do atendente. Ela precisa depender do sistema.

Ele divide a jornada em três fases críticas: o contato inicial, a conferência de arranjo e a execução do serviço. Em cada uma delas, a excelência operacional deve se expressar em comportamentos específicos e mensuráveis jamais em intenções vagas.

O primeiro telefonema, por exemplo, não é apenas um momento de acolhimento. É o ponto onde a confiança começa ou quebra. Tom de voz, clareza sobre os próximos passos e a sensação de que “estão cuidando de mim”. Esses elementos não acontecem por acaso. Eles precisam ser treinados, padronizados e monitorados.

A realidade que Anaya descreve nos EUA ressoa diretamente com o que vivemos no Brasil, talvez com algum agravante, eis que:

  1. A formação do Brasileiro é muito empírica. O que se chama de “jeito de atender” muitas vezes é apenas o hábito de quem chegou antes. Não há profissionais formados em nossa área e, consequentemente, temos de ensinar e treinar tudo, desde um tom de voz até a forma de se movimentar.
  2. No Brasil, a cultura do improvido ainda é bem vista, resolver na hora é visto como virtude. Em muitas situações, de fato é. Mas quando vira regra de operação, ela esconde a ausência de processo.
  3. Há uma confusão recorrente entre hospitalidade e excelência.Receber bem, oferecer café, ter um ambiente bonito são coisas importantes. Mas não substitui a clareza de quem confirma informações e entrega exatamente o que foi prometido.

O Que Podemos Aplicar Hoje

A principal lição que extraio do artigo de Anaya, e que venho tentando implementar no Memorial Vera Cruz, é que o que se mede se honra.

Não basta treinar a equipe para “atender bem”. É preciso definir o que “atender bem” significa em comportamentos observáveis. E depois acompanhar se esses comportamentos estão acontecendo.

Algumas perguntas que uso como referência:

  • A família saiu do primeiro contato sabendo exatamente o que acontece nas próximas horas?
  • Ao final do arranjo, ela se sentiu confiante nas escolhas que fez, ou apenas resignada?
  • O que foi prometido foi entregue, no prazo, sem que a família precisasse perguntar?

Essas perguntas parecem simples. Mas respondê-las com honestidade exige um nível de maturidade operacional que poucos cemitérios e funerárias brasileiras ainda alcançaram.

Conclusão

Anaya encerra o artigo com uma ideia que ficou comigo: quando tudo é entregue conforme prometido, a confiança se torna recorrente.

É exatamente isso que perseguimos desde que fundamos o Memorial Vera Cruz. Não queríamos apenas fazer diferente das funerárias tradicionais, queríamos provar que é possível transformar um dos momentos mais difíceis da vida em uma homenagem verdadeira, conduzida com método, cuidado e respeito.

Confiança não é um valor. É um resultado. E resultados dependem de processos, não de sorte.

Este artigo foi inspirado no texto “Good Intentions Get You Nowhere”, de Josiah Anaya, publicado na revista Memento Mori da ICCFA, edição Março/Abril 2026.

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